Todos perderam com a pandemia. Mas as mães, elas perderam mais

Todas as pessoas que perdem alguém, têm um adjetivo somado a identidade depois disso. Os maridos ou esposas que perderam os cônjuges, se tornam viúvas ou viúvos. Os filhos, que perdem os pais, são órfãos. E as mães que perderam os filhos, o que elas se tornam? Este não é o ‘curso natural da vida’. Talvez seja o luto mais difícil de ser enfrentado e em muitas vezes, grupos de apoio ou atividades relacionadas com a causa da morte dos filhos acabam por ser o conforto dessas [de nós] mulheres.

Guarapuava hoje (24), contabiliza 177 mortos em decorrência da covid-19. Estes 177 filhos, levaram alegria, levaram sentimentos, lembranças. Levaram também esperança. Sim. Levaram um pedaço, um pedaço enorme. As mães, perde [mos] coragem. Perde [mos] motivação. Perde [mos] força. A única coisa que ganha [mos] foi medo de perder, e muitas perdemos.

Mas, não foi apenas a pandemia que tirou vidas neste último ano. Nós, trabalhadores de imprensa [diferentemente do que alguns leitores nos fazem parecer pregar], acompanhamos, há anos, perdas. Dolorosas perdas. Mulheres que perderam os filhos para o crime, outras por questões de saúde, algumas delas, tiveram que enfrentar a dura decisão dos filhos optarem por tirar a própria vida. E a vida? Ela continua.

De fato, cada um sente de um modo. Há pouco menos de completar um ano desde a perda do meu filho, chorei as dores de muitas mães. Os pais, geralmente, têm a dura missão de apoiar as mães, e recolhem a dor. Imensamente igual. De tudo que vivi neste último ano, uma situação me toca em especial. Eu trabalhava na redação do jornal, quando o telefone tocou e um mulher com o sotaque muito característico pediu pelo meu nome. “Larissa?”. Respondi, com pouca empatia e interesse [devido a pressa de uma redação nas primeiras horas da manhã]: “Pode falar”. [Que pena].

A mulher se identificou e me disse: “Soube através de uma notícia escrita por você que meu filho foi encontrado morto dentro da cadeia de Guarapuava“. Paralisei. Senti a dor dela por alguns minutos. O fato é que não há como medir a dor de cada um. Apenas remediá-la.

E aquelas mães que perderam os filhos antes de conhecê-los? Aquelas que tiveram que conviver com a sentença [divina] de que ele [o filho], deveria partir. A ‘sentença’, é uma palavra dura, mas sempre vem carregada de muito e [reitero] muito sentimento, às vezes até um certo egoísmo, apenas por não entender os porquês da vida. Algumas vezes, tive medo de conversar com mães que perderam os filhos. Mas, sempre tive curiosidade sobre como era a fase do esquecimento. Aprendi, a duras penas, que esta fase nunca chega.

Tenho batido muito na tecla de que só compartilhamos a dor do outro, quando ela nos toca. Nos incendeia. Quando ela, de alguma forma, te incomoda, te toca, mas principalmente, quando ela te muda. É fácil falar de empatia no mundo da internet. Difícil mesmo é gente de verdade, que entenda as dores do mundo e através disso, trabalhe para um dia mais fácil de viver. Trabalhe, para uma emoção deliciosa de ser sentida, para um amor impossível de ser esquecido e para uma rotina mais alegre e mais leve. Transcenda boas energias. Se não tem nada a contribuir, não tem nada a dizer. Mantenha o silêncio. Essa é a melhor ajuda para a humanidade. O meu rosto está estampado neste texto, não pelo meu ego, e sim porque eu sou uma das mães que perderam com a pandemia.

Larissa Ortiz. Jornalista do Portal RSN.

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